sábado, 6 de dezembro de 2008

Avaliação final

Cursar a disciplina Mídia e poder foi um exercício diário de pensar a mídia de forma diferente. As discussões em sala de aula e a constante preocupação de encontrar um assunto sobre o qual falar no blog me fizeram ficar mais atenta ao comportamento da mídia e às transformações pelas quais ela está passando.

A bibliografia sugerida pelo professor tinha um conteúdo muito rico e diversificado, tanto que além da apostila cheguei a comprar alguns livros que me interessaram mais. Gostei também do fato de o professor procurar sempre diversificar as aulas, mostrando filmes, clipes, artigos de jornais, trazendo alunos do mestrado para falar de seus trabalhos e usando como guia de aula o material postado em seu blog. Só acho que poderíamos ter dedicado mais tempo a assuntos atuais da mídia como fizemos com a cobertura do caso Eloá, questão que discutimos em sala, porém de forma muito rápida.

Para quem trabalha com o jornalismo diário, que é o meu caso, é muito importante discutir essas questões para poder avaliar melhor o meu trabalho e dos demais veículos de imprensa. No dia-a-dia do jornalismo, infelizmente, não há tempo para verificarmos o impacto do nosso trabalho na população nem, às vezes, analisarmos se estamos sendo rígidos no respeito à ética. No entanto, acho que a chefia dos órgãos de imprensa - que decidem a linha editorial a seguir nos mais diversos assuntos - deveria ficar atenta a essas questões e não se deixar influenciar tanto pela audiência, promovendo verdadeiros espetáculos - no conceito de Guy Debord - das tragédias que ocorrem dia após dia.

Gostei de ter feito os trabalhos em grupo e o blog, como já falei em posts anteriores. No entanto, acho que para uma pós-graduação na qual a maioria dos alunos trabalha e, sendo jornalista, como é a maioria, tem horários malucos, as tarefas da disciplina foram muito puxadas. Acho que se fosse apenas um trabalho em grupo e o blog, além das leituras semanais da bibliografia, seria o ideal e as aulas talvez tivessem um maior aproveitamento porque as pessoas teriam mais tempo para ler os textos de cada semana.

Na última segunda-feira (1º), o professor encerrou a disciplina exibindo um trecho do filme "O grande ditador", de Charles Chaplin. Quero pôr fim às linhas desse blog também com um vídeo, neste caso, do Youtube, que fala das transformações que estão ocorrendo na mídia, e outras que ainda podem acontecer, com o advento da internet e da crescente participação do público na divulgação de informações. Apesar de as grandes corporações serem muito fortes, as pessoas agora estão tendo mais espaço e força para mostrar que além de consumidores são também produtores de notícias.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Fazendo um blog

Quando, no primeiro dia de aula, o professor Dimas falou que teríamos de fazer um blog fiquei logo preocupada. Nunca tinha tido um blog e não gosto de dar opinião publicamente sobre as coisas porque sempre acho que posso estar sendo injusta com algum dos lados do fato em questão. Também sempre pensei que para opinar sobre determinado assunto a pessoa tem que ser um expert no tema.

No entanto, desta vez, não tinha como evitar. O blog era tarefa da disciplina e tive que fazê-lo. Confesso que a experiência foi bem mais tranqüila do que eu imaginava. Houve semanas que eu ficava muito preocupada sem saber sobre o que iria escrever, mas logo surgia algo interessante na mídia, ou durante as aulas, e eu pensava "isto vale um post". Achei interessante o fato de eu ficar tão atenta para temas que poderiam valer um post quanto sempre fiz com relação a assuntos que podem virar pauta.

Sobre os assuntos abordados, procurei não fugir do tema "mídia e poder" e também, na maioria dos posts, usei vídeos, imagens e links para artigos, matérias e outros textos que traziam informações adicionais sobre o que eu estava falando. Uma forma de contemplar várias visões sobre uma mesma questão.

Acho que fui muito dura em relação a alguns temas e entusiasta quanto a outros, como a comunicação na internet. Mas ressalto que não tenho a intenção de tomar como certo ou incontestável nada do que disse. Apenas procurei registrar nesse endereço eletrônico minha impressão sobre o que é veiculado na mídia e o poder que essas informações podem exercer na população.

*** Ah, uma coisa que me empolgou mais com o blog foi quando o professor revelou que um dos motivos que o fez pedir aos alunos que postassem na internet e não entregassem textos impressos foi a preocupação com o meio ambiente.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Avaliação dos seminários

Nesse semestre da disciplina Mídia e Poder, cada grupo teve de apresentar dois seminários sobre temas diferentes. Um primeiro sobre um assunto escolhido pelo próprio grupo e um segundo sobre um tema dado pelo professor.

Achei muito interessante a experiência de voltar a fazer trabalho em grupo como na época da faculdade. As reflexões em conjunto com os colegas de grupo - no meu caso do grupo "Os admiráveis" - geraram um aprendizado que não necessariamente alcançamos sozinhos. A troca de idéias para elaborar o trabalho também foi muito produtiva e além de gerar conhecimento acho que melhorou a forma como cada um de nós se organiza em grupo, consegue propor idéias e aceita a dos colegas para chegar num ponto comum. Acho que conseguimos resumir e expor bem o assunto dos nossos seminários para a turma.

Os debates que as apresentações dos grupos geraram em sala de aula também foram muito interessantes. Compartilhar o ponto de vista dos colegas sobre um assunto a respeito do qual pesquisamos é legal e contribui para nosso crescimento profissional e pessoal. Também passamos a conhecer melhor outros temas abordados pelos grupos como o livro 1984 e os filmes Cidadão Kane e A Montanha dos Sete Abutres, além dos assuntos dos mini-seminários.

Quanto à forma de apresentação, gostei do grupo que falou sobre Velocidade x Veracidade na internet abordando o assunto em forma de debate com a turma. Nos seminários, chamou atenção o grupo dos abutres que usou peruca e nariz de palhaço e distribui lanchinho na sala para falar do espetáculo do jornalismo no filme e atualmente. Acho que o grupo dos admiráveis acertou tanto no mini-seminário como no seminário na escolha de vídeos diferentes - matéria jornalística, vídeo do Youtube, propaganda de televisão e etc - como forma de intercalar a explanação de cada integrante da equipe e tentar fazer com que a apresentação não ficasse cansativa.

Bem, essa foi minha avaliação dos seminários, em seguida, falarei sobre a experiência de fazer um blog e, depois, do que aprendi com a disciplina.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O novo espetáculo



A tragédia causada pela chuva em Santa Catarina é a notícia que virou o mais novo espetáculo da mídia, depois do caso da menina Isabella Nardoni e da jovem Eloá, que ocuparam as manchetes neste ano. A toda hora a imprensa fala do assunto e sempre exibe matérias que puxam pelo sensacionalismo falando da tristeza das famílias que perderem entes queridos, além de suas casas. Todos os dias nas últimas semanas vemos pessoas chorando e gritando de desespero nas reportagens.

A G1obo chegou até a mandar um dos âncoras do Jornal Nacional para Blumenau (SC) e transmitiu parte do jornal da cidade. Na ausência de notícias policiais fortes, os programas tradicionalmente sensacionalistas transmitidos durante a tarde pela Record e pela Bandeirantes focaram suas câmeras na tragédia explorando o drama das pessoas.

A situação é mesmo triste e revoltante: mais de cem pessoas morreram devido a uma chuva forte que atingiu o estado, causou queda de barreiras e enchentes. As matérias devem mostar o lado humano da tragédia, mas acho que não podem esquecer de explicar porque o problema ocorreu e cobrar das autoridades medidas para evitar novos fatos deste tipo. Chuva é algo previsível e saber que casa em barreira pode cair num temporal também. No entanto, poucas reportagens de alguns jornais abordaram a questão, poucas mostraram que no Brasil muitas pessoas moram em condições desfavoráveis e podem ser vítimas de um fenômeno natural em grandes proporções. Outra tragédia como essa pode ocorrer em outras regiões na próxima chuva forte.

Para não ter que mostrar pessoas chorando desesperadas na televisão, nos jornais, no rádio, e na internet novamente, a imprensa deveria desempenhar seu papel de fiscalizadora do poder público, mostrando que muitas pessoas continuam morando em locais de risco e cobrar medidas para que uma tragédia como essa não volte a ocorrer.

De positivo dessa cobertura sensasionalista vemos a solidariedade despertada na população que está mandando donativos e até indo ajudar os desabrigados de Santa Catarina.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um resumo do livro Admirável Mundo Novo para a turma

Na última aula, o grupo que apresentou o seminário sobre o filme "A montanha dos sete abutres" fez uma coisa muito legal para os colegas de sala que foi entregar uma cópia do filme para cada grupo. Eu nunca assisti o filme porque não encontro nas locadoras e com essa cópia vou poder vê-lo e fazer uma reflexão sobre a representação que o filme faz da mídia. O trabalho do grupo já explicou muito bem o filme e deu exemplos de como aquilo ocorre no cotidiano da nossa imprensa.

O seminário do meu grupo foi sobre o livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e até fiz um post comentando a parte sobre a qual falei no seminário. No entanto, após a entrega do filme pelo outro grupo achei que seria importante também fornecer mais material para a turma sobre o livro de Huxley para quem não leu poder ter informações e entender bem o contexto da história, e quem sabe até incentivar os outros alunos a ler o livro, um clássico da literatura.

O material mais completo sobre a obra que encontramos online - é de autoria do professor de literatura Fábio de Oliveira Ribeiro que mantém a revista online "A criação", onde escreve sobre literatura. No texto, ele fala sobre o enredo do livro de Huxley e contextualiza as várias referências que o autor faz a personagens da história mundial e elementos da sociedade Clique aqui para ler o texto sobre ADMIRÁVEL MUNDO NOVO.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A mídia estatal

Acostumada a viver num país com diversos meios de comunicação, internet livre e redes de televisão com programação variada foi estranho ter poucas notícias do mundo durante os dez dias que passei em Havana, capital de Cuba. O governo comunista dos irmãos Fidel e Raúl Castro (atual presidente do país) controla todos os meios de comunicação da ilha e os veículos são basicamente usados para divulgar o pensamento do estado e informações sobre serviços para a população. Até as notícias policiais são relatadas com o retrato falado ou fato de um suspeito com um apelo para que a população ajude a encontrá-lo.

No tempo em que estive lá, no começo deste mês de novembro, um furacão chamado Paloma passou pelo centro e parte oriental do país e a toda hora as redes de televisão, rádios e jornais falavam sobre o assunto. Dias antes, as notícias eram voltadas a informar as previsões sobre o fenômeno, como se proteger e o que o governo estava fazendo para evitar os danos. Dias depois, a cobertura sobre a tragédia trazia casas, plantações, escolas, cidades destruídas e a população em lágrimas, mas aliviada por ninguém ter morrido.

Há poucas notícias sobre fatos que ocorreram no país, o hard news dos jornais. Na ilha, até os outdoors são usados para enaltecer o governo e agredir quem é contra ele. O alvo, invariavelmente, são os EUA. As matérias, que não são de serviço, têm forte cunho opinativo do pensamento do governo e muitas possuem uma estrutura parecida com a de um artigo. As informações sobre outros países, em geral, são divulgadas em forma de notas. As mais importantes, como o resultado da eleição americana, por exemplo, ganham mais espaço. O maior jornal do país, o Granma, veicula artigos de Fidel Castro periodicamente e, assim, a população continua acompanhando os pensamentos do ex-presidente.

Os canais de televisão na ilha também são mais voltados para matérias de serviço e destinam uma boa parte da transmissão a programas oficiais do governo, educativos e de entretenimento com novelas brasileiras, cubanas, de outros países latinos e até seriados americanos.



A internet tem acesso restrito e controlado no país. Muitos cubanos possuem aparelhos de rádios e antenas parabólicas “clandestinos” que conseguem captar emissoras americanas em língua espanhola e usam isso para poder ter mais informação. Uma vizinha da casa na qual fiquei, sempre nos atualizava com as notícias de fora da ilha. Um dia ela nos confessou que ouvia as notícias num radinho de pilha “clandestino”. Cubanos não podem ouvir emissoras de outros países.

Na ilha há um canal de televisão, também estatal, voltado para turistas e diplomatas, o Cubavisión Internacional, com notícias internacionais e da programação cultural do país, mas só poder ser visto por quem tem TV a cabo, o que não é permitido para cubanos.

A qualidade das transmissões e dos veículos impressos também foi abalada pela crise que o país enfrenta desde o fim da União Soviética que garantia os suprimentos que o país deixou de ter com o embargo internacional. Os jornais são em formato tablóide, possuem poucas páginas (é caro importar papel) e o número de veículos foi reduzido no final da década de 80. Na televisão, há muitos programas estrangeiros porque a produção local não consegue cobrir o tempo de programação diária. A pesquisadora Carola Saavedura Hustado fez sua dissertação de mestrado, em uma universidade alemã, sobre a situação da mídia em Cuba. Leia um artigo dela sobre o assunto.

O controle da mídia pelo governo cubano determina o que a população deve saber e de que forma o fato deve ser transmitido. Isso restringe o acesso à informação, funciona como instrumento de manipulação da opinião pública e não permite um jornalismo imparcial e apartidário. Deve ser complicado trabalhar como jornalista numa situação deste tipo... No entanto, como tudo tem dois lados, no caso de Cuba, o positivo é o fato de a imprensa ser bem usada para informar a população sobre serviços essenciais e educar por meio dos telecursos.

***Esse post se restringe à situação dos meios de comunicação em Cuba e não pretende julgar o regime político do país. Isso renderia outra discussão muito mais longa.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O admirável e controlado mundo novo



Esse vídeo é uma referência bem-humorada ao poder de grandes corporações da mídia. Durante o seminário sobre o livro "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, mostramos como o conteúdo do livro poderia ser refletido em várias áreas. Na imprensa, o poder de grandes grupos controlando vários veículos e empresas de diversos ramos espelha a sociedade onde tudo era controlado, programado e previsível como retrata a obra do escritor americano.

No livro “O que os jornalistas devem saber e o público exigir”, os jornalistas Bill Kovach e Tom Rosenstiel alertam para o perigo do controle da imprensa que é feito pelas grandes corporações. Segundo os autores, a atuação dessas empresas pode representar uma ameaça à liberdade de imprensa e à credibilidade do jornalismo, pois, como dominam diversos veículos, esses grupos tendem a fazer coberturas homogêneas e controladas de um mesmo assunto.

Outro problema é o jornalismo parcial e partidário em relação a negócios do grupo que não sejam da área jornalística e também em relação a outras empresas com as quais o grupo tenha afinidade e interesse. Os veículos de comunicação do grupo não criticam ou não falam sobre assuntos que possam afetar a imagem das outras empresas do conglomerado.

O império do empresário australiano naturalizado americano Rupert Murdoch, por exemplo, totaliza quase 800 empresas em mais de 50 países em cinco continentes. Seus negócios vão desde jornais, redes de televisão até sites de relacionamento, estúdios de cinema e equipes esportivas. Não há independência e imparcialidade na cobertura que seus veículos de imprensa fazem de assuntos relacionados aos outros setores do grupo.

No Brasil, o maior grupo de mídia que há são as Organizações G1obo que possuem jornais, revistas, rádios, emissoras de televisão, sites, produtora de filmes, de discos, editora de livros, entre outros. Por isso é importante tanto o leitor como o jornalista sempre terem uma visão crítica em relação ao papel da imprensa e o tipo de cobertura que cada veículo faz dos diversos assuntos que são notícia.

sábado, 1 de novembro de 2008

O seqüestro espetacular

Jornalistas, escritores, psicanalistas e professores escreveram suas opiniões sobre a cobertura que a mídia fez do caso do seqüestro em Santo André. Em artigo publicado no site do Observatório da Imprensa, Venício A. de Lima, propõe que haja um programa mensal voltado a discutir a ação da mídia em casos como o seqüestro em Santo André e questiona se o papel da mídia deve ser investigado e discutido da mesma forma que a imprensa costumeiramente estimula a sociedade a questionar e cobrar que seja investigada a ação da polícia nesses e em outros casos.

Também na página do Observatório da Imprensa na internet, o escritor e jornalista Uraniano Mota, chama a atenção de como a mídia consegue prolongar um assunto que dá audiência com a ampla cobertura da doação dos órgãos da garota Eloá Cristina Pimentel entrevistando parentes das pessoas que receberam os órgãos. Na visão do escritor, a cobertura foi trabalhada de forma a sinalizar que mesmo uma tragédia pode ter um final feliz, salvando a vida de quem precisa de um novo órgão. O título de seu artigo é bem apropriado: Quando a notícia vira telenovela.

Na Folha de S. Paulo, o psicanalista e professor da PUC-SP, Renato Mezan, discuti o assunto e traça uma explicação da personalidade do seqüestrador, Lindemberg Alves, e como a maciça cobertura da imprensa e o fato de alguns veículos ter dado oportunidade para ele falar em rede nacional pode ter potencializado o lado doentio de sua mente.

No texto, o autor diz: “a total impotência [de Lindemberg em conseguir se separar de Eloá, de luidar com a situação], impossível de ser admitida porque significaria a ruína de uma auto-imagem já muito pouco sólida, é negada pela megalomania: ‘Eu sou o cara’, ‘sou o príncipe do gueto, o cara que manda no local'". A espetacularização do seu ato tresloucado, a evidência de que (como disse o coronel) havia conseguido mobilizar todo aquele aparato (e a atenção de milhões de telespectadores), teve o efeito de reforçar sua crença nessas fantasias grandiosas”, diz o psicanalista.

O site adnews.com propôs uma enquete para que as pessoas opinem sobre a cobertura da mída no caso do seqüestro. Para votar é só acessar o link: http://www.adnews.com.br/midia.php?id=78225

A leitura do livro "A sociedade do espetáculo", de Guy Debord, que já citei no outro post, também nos faz compreender melhor os motivos que nortearam a cobertura sem parâmetros desse caso e como a cobertura de algumas notícias viram espetáculos. Para encerrar esse post, deixo aqui uma frase de Debord, que, na minha opinião, resume o assunto: "o espetáculo significa que ele transpôs o limiar de sua própria abundância".

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A mídia seqüestrada

A cobertura do seqüestro da estudante Eloá Cristina Pimentel, em Santo André, na região do ABC paulista, mostrou que é preciso discutir a atuação da mídia em determinados casos e a necessidade de se ter clareza dos princípios que devem nortear a atividade jornalística. Após 100 horas de cativeiro a garota levou um tiro na cabeça e morreu no hospital. Sua amiga, Nayara Silva - que também foi feita refém, conseguiu ser libertada um dia depois, e voltou ao cativeiro numa ação desastrosa da polícia – foi atingida com um tiro no rosto e conseguiu sobreviver. O seqüestrador, Lindemberg Alves, foi preso.



Veículos de imprensa de todos os tipos fizeram plantão nas proximidades do prédio onde ocorria o seqüestro, captaram imagens 24 horas do local e mostraram tudo na televisão, mesmo sabendo que o seqüestrador tinha acesso à transmissão que era feita. Nos cinco dias que durou o crime, Lindemberg teve como se antecipar às ações da polícia, pois sabia quase tudo que seria feito por meio da televisão.

Nos primeiros dias do seqüestro, que começou na segunda-feira (13) a maioria dos veículos de imprensa tentou manter uma cobertura normal, sem apelar em mostrar imagens que poderiam favorecer o seqüestrador. No entanto, na quarta-feira (15), após o programa “A tarde é sua”, da apresentadora Sônia Abrão, na Rede TV, entrevistar o seqüestrador ao vivo em rede nacional, grande parte da imprensa esqueceu seu papel, seu compromisso com a ética e passou a pensar só na audiência.

Sem o mínimo de preparo para negociar com criminosos, vários jornalistas telefonaram para a casa onde ocorria o seqüestro e falaram com Lindemberg e Eloá. No programa “A tarde é sua”, o repórter ligou para o seqüestrador fingindo ser um amigo da família dele, como mostra o vídeo que foi ao ar. Depois da insistência de Lindemberg é que o repórter se identifica, mas continua mentindo dizendo que não está gravando, que só quer ajudar o rapaz. Quando o seqüestrador demonstra interesse em estar na mídia é que o repórter admite que está gravando e ensaia uma negociação com o seqüestrador.

Sem postura de jornalista, o repórter chama Lindemberg de “filho”, “velho”, “cara” na tentativa de ganhar intimidade com o rapaz. Em nenhum momento o jornalista parece atentar para o fato de que poderia dizer algo impróprio que irritasse Lindemberg. Em um trecho da conversa o rapaz deixa claro que está no comando e fala “não me deixa nervoso, cara”. Depois da gravação, a apresentadora do programa entrevista Lindemberg ao vivo e também tenta negociar o fim do seqüestro sem sucesso.



Os jornalistas passaram do limite do qual nem a família passou. A pedido da polícia, as famílias das reféns e do seqüestrador não ficaram em contato com os dois por telefone para não atrapalhar as negociações, mas a imprensa quando percebeu que isso poderia render muita audiência bateu um papo com o criminoso em rede nacional.

A atitude da Rede TV em vez de ser condenada pelo resto da mídia, encorajou outros veículos a também entrevistar o seqüestrador e divulgar suas palavras em rede nacional. Para a polícia, a interferência da imprensa atrapalhou as negociações e prolongou a duração do crime. Não há como medir os efeitos da atitude da imprensa no caso e é preciso deixar claro que o maior culpado do que aconteceu foi Lindemberg. Mas algo certo é que alguns jornalistas agiram com imperícia ao tentar desempenhar um papel para o qual não estão capacitados que é o de negociar com um seqüestrador.

A notícia virou um espetáculo e, como diz Guy Debord, em seu livro "A sociedade do espetáculo", perdeu em qualidade. Segundo o autor explica em seu livro, "a tão evidente perda da qualidade, em todos os níveis, dos objetos que a linguagem espetacular utiliza e das atitudes que ela ordena apenas traduz o caráter fundamental da produção real que afasta a realidade".

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mudança de geração

Durante as aulas, quase toda vez que falávamos do jornalismo na internet alguns comentavam que o que temos hoje não é diferente de outros meios e mais parece uma matéria de jornal num suporte online. Concordo com essa afirmação, mas acho que o meio permite uma grande mudança, no entanto, tanto quem o faz como quem o lê não descobriu ainda como ser diferente. Todo novo meio passa por uma fase de adaptação e isso está ocorrendo com a internet.

Após ler, nesta semana, pesquisadores que estudam a questão fiquei pensando que eles podem ter razão quando dizem que a mudança radical do jornalismo na internet deve ocorrer quando as novas gerações, que estão crescendo na era online, passarem a fazer jornalismo e a ler notícias de uma forma diferente.

Um dos maiores especialistas em internet do mundo, o pesquisador americano Steven Johnson, diz, em seu livro "Cultura da Interface", que apesar de o hipertexto online sugerir toda uma nova gramática de possibilidades, e de ser uma ruptura com os outros meios, ele não conseguiu, ainda, mudar a forma de se contar histórias e de se estruturar mentalmente as narrativas. Os textos na web, analisa Johnson, continuam a ser escritos como no meio impresso. Quando surgiu a internet, com uma vasta possibilidade de recursos, muitos imaginaram que mudanças drásticas iriam ocorrer.

“Jornalistas iriam enviar histórias num formato mais tridimensional – com uma série de combinações possíveis, em vez de uma peça unificada. Os links iriam transformar nossas expectativas mais básicas com relação à narrativa tradicional. Passaríamos a valorizar o ambiente sobre o argumento, a metamorfose sobre a coerência”, diz o autor em seu livro.

Para Johnson, a mudança não aconteceu até agora porque os leitores atuais estão acostumados com a leitura ordenada da narrativa. Para ele, o gosto pela prosa não-linear pode ocorrer quando as pessoas estiveram mais acostumadas às novidades do ambiente online, e “aos estranhos novos hábitos de leitura que ele exige”, cita.

Assim também pensa o pesquisador Aspen Aarseth. “Pode ser muito cedo para passar-se a um julgamento sobre o sucesso cultural do hipertexto, uma vez que mudanças culturais são muito mais lentas que inovações tecnológicas. Talvez a idéia de (Ted) Nelson de uma escrita não seqüencial seja adotada por uma geração que lê a maioria de seus textos online, e para a qual a impressão em papel parecerá graciosamente antiquada e ornamental, um pouco como as inscrições em pedra nos parecem hoje”.

"Eu ainda acredito no papel"
Convidado para falar durante o seminário sobre a Gazeta Esportiva online, o comentarista esportivo Chico Lang evidenciou bem essa questão. Ele estava lá para falar como foi a experiência de passar do jornal impresso para o ambiente online, mas demonstrou não ficar muito à vontade com o novo meio e no final da sua fala afirmou que pretende, junto com amigos, lançar um jornal esportivo impresso para ser distribuído nas ruas. Lang explicou a iniciativa dizendo: "eu ainda acredito no papel".

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Bastidores do jornalismo vazam na rede

Nesta semana, vazou na internet e logo foi colocado no Youtube um vídeo da jornalista Renata Vasconcellos fazendo careta e mostrando a língua para a câmera no intervalo do Jornal Nacional do sábado (4/10), quando ela estava apresentando o telejornal juntamente com Alexandre Garcia. Vasconcellos é apresentadora oficial do Bom Dia Brasil.



Após vazar no Youtube o vídeo logo virou notícia e o assunto foi publicado na versão online dos grandes jornais do país, como a Folha Online, e também em diversos portais de notícias. A questão me fez lembrar o assunto do seminário do meu grupo sobre notícias que vazam e a repercussão que isso tem na vida do país e da pessoa alvo do vazamento.

Neste caso, a jornalista não deve ter tido problemas, pois não deveria saber que estava sendo gravada em pleno intervalo do jornal, num ambiente fechado, e também porque o fato não deve ter sido encarado como ruim para a imagem da TV. Mas certamente ela vai pensar duas vezes antes de fazer a careta de novo no intervalo da apresentação. O caso também deve ter deixado outros jornalistas mais atentos para o que se fala e se faz quando o programa não está no ar.

Em tempos de câmera até no celular, qualquer pessoa pode estar sendo gravada a todo momento nas situações mais inusitadas possíveis. Há poucos meses, o apresentador da Bandeirantes, José Luiz Datena, se viu numa situação complicada com o vazamento no Youtube de um vídeo dos bastidores da apresentação da festa do boi de Parintins (AM), no qual ele criticava o apresentador da festa, dizia palavrões, e ainda falava mal da disputa da audiência.

Não são mais só os jornalistas que estão atentos para o que ocorre nos bastidores e para as notícias que podem vazar a qualquer momento. Com o advento da tecnologia, qualquer cidadão tem condições de fazer o papel de um jornalista, captar uma imagem ou fala e divulgá-la para uma infinidade de pessoas.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Nova mídia x velha mídia


Há dias estou querendo escrever sobre as discussões que tivemos nas aulas a respeito da internet e o papel dela no jornalismo. Vou tentar dividir minhas reflexões em vários posts para poder seguir a lição básica do jornalismo online que é fazer textos mais curtos. Apesar de, na web, o espaço ser praticamente ilimitado, é bom não desencorajar o leitor que vai desistir de começar a ler quando se deparar com vários parágrafos enfileirados em um só texto. O recursos do link, que permite agregar conteúdo em páginas diferentes, na minha opinião, é uma ótima forma de tentar fazer com que a pessoa leia mais, sem assustá-la com muitas letrinhas de uma vez só.

Bem, essa tirinha, do cartunista Arnaldo Branco, tem relação com as discussões que estamos tendo nas últimas aulas sobre o jornalismo na internet. Na aula passada (6/10), discutimos o assunto com a apresentação do seminário sobre Velocidade x Veracidade que abordou características da internet como nova mídia e seus diferenciais em comparação com as velhas mídias.

Na aula anterior, no seminário sobre a passagem da Gazeta Esportiva do papel para a internet também falamos sobre o assunto. O quadrinho evoca a discussão: "a internet vai acabar com o jornal?". Bem, mais de dez anos após o boom da internet no Brasil isso ainda não ocorreu (no Brasil...). Segundo levantamento do IVC (Instituto Verificador de Circulação), a circulação de jornais no país cresceu 8,1% no primeiro semestre deste ano em comparação com igual período do ano passado. Em média, 4,39 milhões de exemplares circularam diariamente no país nos primeiros seis meses deste ano contra 4,06 milhões de exemplares na mesma época do ano passado.

Nos últimos dez anos, no entanto, a venda de jornais caiu em todo o mundo, mas, para os analistas, isso não se deve só ao fator internet. Crises econômicas também abalaram a venda de jornais. O Brasil ainda tem outra particularidade que retarda a queda nas vendas que é o fato de grande parte da população não ter acesso a internet.

Para a editora-executiva da Folha de S.Paulo, Eleonora de Lucena, "os jornais condensam uma credibilidade difícil de ser replicada em outros meios e funcionam como uma bússola para o leitor imerso no caos informativo atual", disse ela em artigo publicado na edição do dia 8 de junho do jornal. Lucena defende o papel e o poder do jornal na sociedade, questiona sobre como ele deve se renovar para conquistar novos leitores e afirma que as previsões pessimistas do fim do impresso com o advento da internet não se confirmaram.

Na mesma edição há um texto do jornalista Eric Alterman, publicado originalmente na revista americana New Yorker, que fala da queda da venda dos jornais e da perda de valor das ações dos grupos de comunicação nos Estados Unidos. Para ele, "na era da internet ainda não apareceu ninguém com uma solução para salvar o jornal, nos EUA e no mundo". Vale a pena ler!

O professor americano Philip Meyer, autor do livro “Os jornais podem desaparecer?” diz que o fim do impresso pode ter data certa para acontecer: 2043 (leia aqui um artigo dele). Segundo o professor pode ser um pouco antes, caso seja mantida a atual tendência de queda nas tiragens e na receita de publicidade. No entanto, na opinião de Meyer, a morte pode ser evitada caso os donos dos jornais consigam identificar uma área na qual o impresso tem chances de sobreviver. Para ele, esse último filão talvez seja um maior investimento nas notícias locais.

Certo é que para continuar circulando e garantindo suas receitas os jornais terão que cada vez mais investir no furo, em reportagens analíticas e numa cobertura diferenciada dos fatos mais importantes do dia. Com o crescimento da internet e com a já massiva presença da televisão ninguém mais vai querer ler a notícia de hoje, que já está na internet e também foi veiculada no rádio e na TV, no jornal de amanhã.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Os admiráveis

A foto ao lado é do grupo "Os admiráveis" que vai apresentar o seminário sobre o livro "Admirável mundo novo" no dia 27 de outubro deste ano. Nesta segunda-feira (29), os admiráveis têm a missão de apresentar o mini-seminário da disciplina. Vamos falar sobre assuntos que viraram notícia porque vazaram e escolhemos três exemplos que tiveram repercussão internacional.

Primeiro vamos tratar do caso do ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero cujas declarações vazaram em transmissão via antena parabólica antes de começar a entrevista que ele daria minutos depois. As declarações de Ricupero, que disse "eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde" tiveram uma repercussão ruim para sua imagem e do governo que tentava eleger Fernando Henrique Cardoso como presidente da República. Na tentativa de dizer à população que não concordava com a forma de agir do ministro, o então presidente Itamar Franco fez Ricupero deixar o cargo e conseguiu eleger FHC.

Em seguida a equipe vai falar de uma imagem que ficou famosa na época do acidente da TAM, em julho de 2007. Dias depois do acidente o então assessor especial da presidência Marco Aurélio Garcia aparece em rede nacional em reportagem da Rede Globo fazendo um gesto que foi compreendido como uma comemoração ao fato de haver a possibilidade de o acidente ter sido causado por uma falha na aeronave. Logo quando ocorreu o acidente a imprensa se apressou em culpar o governo pela tragédia porque a pista do aeroporto havia acabado de passar por uma reforma que não teve resultado satisfatório. Em entrevista, Garcia diz que o gesto foi de indignação pela imprensa ter de pronto culpado o governo sem saber ao certo as causas do acidente, algo que não foi revelado até agora, mais de um ano após a tragédia. Na apresentação, vamos debater a legitimidade de a imagem ter sido divulgada e como a imprensa tratou o fato.

A dúvida do "levar ao ar ou não" também permeia o terceiro vídeo que será debatido que é sobre a entrevista que Suzane Von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão pela morte dos pais, deu ao programa Fantástico, meses antes de seu julgamento. A reportagem traz uma entrevista vazia na qual a jovem mal responde às perguntas da repórter e insiste numa imagem de pessoa boba que seria incapaz de cometer um crime de tamanha gravidade. Num momento em que não sabia que estava sendo filmada, a jovem recebe instruções do advogado e o áudio é captado pela equipe de reportagem e levado ao ar como se mostrasse um outro lado da jovem ali retratada.

Com esses três vídeos a equipe pretende discutir e gerar um debate na turma sobre o que é realmente notícia, que critérios devem ser considerados na hora de decidir se o assunto será veiculado ou não e como divulgá-lo de forma a evitar um pré-julgamento por parte da população.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Notícias que vazam e o papel do jornalista

Pesquisando sobre o tema que a equipe da qual faço parte escolheu para o mini-seminário da disciplina "Mídia e poder" encontrei opiniões distintas de críticos e estudiosos da comunicação sobre como devemos agir diante de uma notícia que vazou.

A maioria concorda no ponto que é preciso ter certeza de que o assunto é mesmo relevante para poder divulgá-lo. Mas será assim tão simples definir o que é mesmo relevante? E o que vale a pena divulgar mesmo sabendo que se está induzindo uma determinada reação da sociedade.

Em artigo publicado no site do Observatório da Imprensa o jornalista Carlos Eduardo Pestana Magalhães diz que aos veículos de comunicação cabe divulgar informações e não julgar. Na opinião dele, mesmo se a informação for considerada de segurança nacional e for divulgada o problema não é de quem divulgou e sim do governo que deixou algo importante vazar. Fiquei me perguntando se também não somos reponsáveis pelas conseqüências do que publicamos. Será que a segurança nacional vale um furo? Divulgar algo que sabemos que vai levar a sociedade a um pré-julgamento de alguém ou algo vale um furo? Por enquanto, estou mais para o NÃO do que para o SIM.

Ana Rita Marini, no texto "Voyeurismo e espetáculo comprometem o jornalismo", publicado no Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, discute a relevância de se publicar uma imagem conseguida sem a ciência de uma pessoa pública. No texto, ela questiona até que ponto essa imagem contribui para a resolução do problema vigente, no caso o acidente da TAM em 2007 que causou a morte de 199 pessoas. Outro pergunta da autora é se a exibição da imagem deixa a população mais informada sobre o então problema do caos aéreo no país. Dois estudiosos da comunicação entrevistados pela autora acreditam que apesar de ser notícia a veiculação da imagem não tem relevância social.

No entanto, não é só de relevância social que vive o jornalismo, caso contrário não existiriam as publicações voltadas para noticiar a vida de famosos. Acho que a questão de publicar ou não determinados fatos tem de se analisada cuidadosamente caso a caso. O complicado é ter tempo para a reflexão no cotidiano corrido das redações.

Blog de Mídia e poder

Este blog é um trabalho da disciplina "Mídia e poder" da Pós-graduação em comunicação da Faculdade Caspér Líbero, em São Paulo. Ele será atualizado, pelo menos, uma vez por semana com reflexões sobre o papel da mídia e o poder que ela exerce na sociedade.

Se você tiver alguma reflexão para fazer sobre esse tema, mande sua opinião para esse blog.