segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mudança de geração

Durante as aulas, quase toda vez que falávamos do jornalismo na internet alguns comentavam que o que temos hoje não é diferente de outros meios e mais parece uma matéria de jornal num suporte online. Concordo com essa afirmação, mas acho que o meio permite uma grande mudança, no entanto, tanto quem o faz como quem o lê não descobriu ainda como ser diferente. Todo novo meio passa por uma fase de adaptação e isso está ocorrendo com a internet.

Após ler, nesta semana, pesquisadores que estudam a questão fiquei pensando que eles podem ter razão quando dizem que a mudança radical do jornalismo na internet deve ocorrer quando as novas gerações, que estão crescendo na era online, passarem a fazer jornalismo e a ler notícias de uma forma diferente.

Um dos maiores especialistas em internet do mundo, o pesquisador americano Steven Johnson, diz, em seu livro "Cultura da Interface", que apesar de o hipertexto online sugerir toda uma nova gramática de possibilidades, e de ser uma ruptura com os outros meios, ele não conseguiu, ainda, mudar a forma de se contar histórias e de se estruturar mentalmente as narrativas. Os textos na web, analisa Johnson, continuam a ser escritos como no meio impresso. Quando surgiu a internet, com uma vasta possibilidade de recursos, muitos imaginaram que mudanças drásticas iriam ocorrer.

“Jornalistas iriam enviar histórias num formato mais tridimensional – com uma série de combinações possíveis, em vez de uma peça unificada. Os links iriam transformar nossas expectativas mais básicas com relação à narrativa tradicional. Passaríamos a valorizar o ambiente sobre o argumento, a metamorfose sobre a coerência”, diz o autor em seu livro.

Para Johnson, a mudança não aconteceu até agora porque os leitores atuais estão acostumados com a leitura ordenada da narrativa. Para ele, o gosto pela prosa não-linear pode ocorrer quando as pessoas estiveram mais acostumadas às novidades do ambiente online, e “aos estranhos novos hábitos de leitura que ele exige”, cita.

Assim também pensa o pesquisador Aspen Aarseth. “Pode ser muito cedo para passar-se a um julgamento sobre o sucesso cultural do hipertexto, uma vez que mudanças culturais são muito mais lentas que inovações tecnológicas. Talvez a idéia de (Ted) Nelson de uma escrita não seqüencial seja adotada por uma geração que lê a maioria de seus textos online, e para a qual a impressão em papel parecerá graciosamente antiquada e ornamental, um pouco como as inscrições em pedra nos parecem hoje”.

"Eu ainda acredito no papel"
Convidado para falar durante o seminário sobre a Gazeta Esportiva online, o comentarista esportivo Chico Lang evidenciou bem essa questão. Ele estava lá para falar como foi a experiência de passar do jornal impresso para o ambiente online, mas demonstrou não ficar muito à vontade com o novo meio e no final da sua fala afirmou que pretende, junto com amigos, lançar um jornal esportivo impresso para ser distribuído nas ruas. Lang explicou a iniciativa dizendo: "eu ainda acredito no papel".

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